Governo do Distrito Federal
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27/03/20 às 17h31 - Atualizado em 27/03/20 às 17h55

Zoológico de Brasília abriga animais resgatados de circo

Por Thaís Miranda

Acredita-se que os circos tenham surgido na China há mais de quatro mil anos e uma das principais atrações perde cada vez mais seu espaço nos espetáculos. No picadeiro muitas pessoas desafiam as suas habilidades, como malabaristas, mágicos e ilusionistas, mas há algumas apresentações nas quais os artistas não querem estar ali. São os espectáculos com animais. O uso de animais selvagens e exóticos em apresentações circenses tem se tornado cada vez mais incomum graças a ações de conscientização por parte de zoológicos e associações do Brasil e do mundo.

 

Além de não se adequar mais aos interesses e anseios da população, as ilegalidades que normalmente ocorrem com os animais em circos tratam de uma mudança de paradigma, uma vez que o bem-estar dos animais passa a ser prioridade em um espetáculo. Ainda não existe uma legislação federal que regulamente tais apresentações, mas no Distrito Federal há a Lei 6113, de 2 de fevereiro de 2018, que proíbe espetáculos circenses com a utilização de animais domésticos e da fauna silvestre.

 

Em 2008, a Fundação Jardim Zoológico de Brasília (FJZB) recebeu três animais que faziam apresentações na América latina com um circo itinerante. A apreensão foi feita pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e, desde então, a FJZB acolhe o elefante-africano Chocolate, o hipopótamo fêmea Iully e o rinoceronte-branco Thor. Certamente estão entre os animais que mais chamam atenção numa visita ao Zoológico de Brasília, mas poucos sabem a história que os fizeram chegar até o Zoo.

 

Esses animais carregam consigo traumas e cicatrizes difíceis de curar, mas contam com a equipe de biólogos, médicos veterinários e cuidadores do Zoológico de Brasília que se dedica diariamente na promoção do bem-estar e da qualidade de vida. “O Thor, a Iully e o Chocolate chegaram aqui no Zoo muito debilitados. A gente precisou avaliar não só a questão clínica, mas comportamental também”, conta o diretor de mamíferos da FJZB, Filipe Reis.

 

Animais que já passaram por apresentações em circos costumam ter algumas características comportamentais específicas e possivelmente irreversíveis. Eles podem desenvolver mais agressividade e medo, por exemplo. Para amenizar esses comportamentos, a equipe do Núcleo de Bem-Estar Animal (NBEA) desenvolve enriquecimentos semanais para esses indivíduos, para que eles se ocupem com atividades diferentes e ao mesmo tempo estimulem o aprendizado com experiências novas.

 

“Com o Chocolate fazemos muito enriquecimento cognitivo para aproveitar a esperteza dele. A gente promove jogos de esconde-esconde com comida e usamos alguns acessórios que dificultam o acesso rápido aos alimentos. Com a Iully, a gente faz picolé de frutas e de sal em dias quentes e jogamos caules de bananeira na água. E com o Thor nós fazemos muitos enriquecimentos sensoriais, como trilhas de cheiro e camas de feno e de areia”, explica a chefe do NBEA, Marisa Carvalho.

 


Além dos cuidados comportamentais, esses animais necessitam de uma atenção especial em relação a cuidados físicos. Segundo Reis, tanto o Thor quanto a Iully e o Chocolate apresentam cicatrizes de um passado incerto. “O Choco chegou com escore corporal abaixo do esperado, ou seja, não tinha o porte físico adequado para a sua idade e espécie. O Thor chegou com uma lesão crônica nos olhos. E a Iully infelizmente não se adaptou com os outros indivíduos de hipopótamos do Zoo de Brasília”.

 

Para reverter esse quadro clínico, biólogos da FJZB trabalham em conjunto com médicos veterinários e zootecnista. O Chocolate conta com uma dieta balanceada e equilibrada para melhorar seu porte físico de acordo com o escore corporal ideal para a espécie. A Iully ganhou um recinto ao lado dos outros indivíduos e é mantida separada de maneira que garanta a sua segurança. Já o Thor exige cuidados veterinários duas vezes por dia.

Ana Carolina Rodarte, médica veterinária oftalmologista parceira do Zoo, conta como são os cuidados com ele. “No início o Thor tinha uma inflamação nas pálpebras, chamada de blefarite, que foi tratada com pomada antibiótica. Hoje ele tem uma conjuntivite crônica que é acentuada no período de seca, entre julho e setembro. Por isso, precisamos fazer o controle diário com lubrificantes e higienização”, detalha.

 

O tratamento diário com o Thor é possível graças aos condicionamentos realizados pelo NBEA. De acordo com a Marisa, os condicionamentos são ferramentas utilizadas para auxiliar na rotina dos animais, sobretudo em eventos veterinários. “Toda semana fazemos o condicionamento com o Thor pra ele entrar na área de treinamento e, voluntariamente, deixar que a gente realize a aplicação do colírio e a limpeza dos olhos. Isso é feito por meio do reforço positivo. Ele realiza o comportamento esperado e ganha uma recompensa em troca. E se ele não fizer, tudo bem. Tentamos novamente mais tarde”.

Não existem registros recentes de animais em circo atualmente no Brasil, mas cabe ao Zoológico de Brasília desenvolver ações de conscientização para a população. Denúncias de qualquer indício da prática podem ser feitas pelo telefone 0800-61-8080.

 

Projeto de Lei 7291/2006

No Brasil, há o Projeto de Lei 7291/2006, que estabelece a proibição do uso de animais em circos a nível nacional, mas ainda aguarda por votação na Câmara dos Deputados.

 

Muitos países já proibiram o uso de animais em circos, como a Índia, a Itália, a Irlanda, a Romênia, a Eslováquia, a Áustria, a Holanda, a Suécia, a Índia, a Finlândia, a Suíça, a Dinamarca e a Argentina. São mais de 40 países que não aprovam essa prática.

 

 

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